No domingo, 4 de outubro, as duas maiores cidades da Tríplice Fronteira foram às urnas no mesmo dia. Não pela mesma eleição: o Paraguai votava para intendente e Junta Municipal, o Brasil votava para presidente, governador, senadores e deputados. A coincidência de calendário produziu, mesmo assim, um retrato raro das duas margens — e o retrato mostra duas cidades que votaram diferente dos seus próprios países.
Ciudad del Este: maioria própria pela primeira vez
Daniel Mujica, da Yo Creo, foi eleito intendente de Ciudad del Este com 95.888 votos, o equivalente a 72,83% dos votos válidos. A diferença sobre o segundo colocado é de quase três para um: Miguel Chamorro, da Asociación Nacional Republicana (ANR, o Partido Colorado), teve 31.337 votos, ou 23,80%.
Atrás deles, Angélica Mora somou 949 votos (0,74%) e Cuéllar Flores, 888 (0,67%). Houve 2.252 votos em branco. A participação ficou em 58,37% do eleitorado habilitado.
O dado mais relevante da eleição esteadense, porém, não está no nome do vencedor — está na composição da Junta Municipal. A Yo Creo elegeu nove das doze bancas, a primeira maioria própria de um movimento local na câmara da cidade. Isso significa que o próximo intendente assume sem depender de negociação caso a caso para aprovar orçamento, empréstimo ou nomeação.
Há ainda um detalhe que diz muito sobre como o voto se formou: Mujica recebeu cerca de 12 mil votos mais do que a sua própria lista de concejales, que ficou em torno de 83.700. Ou seja, uma fatia considerável do eleitorado votou na pessoa e não no movimento — votou Mujica para intendente e outra coisa para a Junta.
A posse está marcada para 3 de novembro.
O que aconteceu no resto do Paraguai
Nacionalmente, o resultado foi quase oposto. A ANR venceu em 11 das 17 capitais departamentais e ficou com 187 intendências em todo o país, confirmando a sua máquina territorial. Mas perdeu as duas maiores cidades do Paraguai: Assunção e Ciudad del Este.
É esse contraste que faz de Ciudad del Este um caso, e não apenas um resultado: a cidade votou contra o partido que venceu quase todo o país em volta dela.
Foz do Iguaçu: acima da média nacional, abaixo da estadual
Do lado brasileiro, Foz do Iguaçu deu 60,96% a Flávio Bolsonaro e 55,34% a Sergio Moro, candidato ao governo do Paraná.
No estado, Moro foi eleito em primeiro turno com 50,10% dos votos válidos — 3.127.911 votos — e foi o mais votado em 287 municípios paranaenses. Flávio Bolsonaro teve 59,91% no Paraná, vencendo em 350 municípios, contra 31,20% de Lula. Para o Senado, o estado elegeu Filipe Barros (PL) e Deltan Dallagnol (Novo).
Na soma nacional, nenhum candidato fechou o primeiro turno: Flávio Bolsonaro terminou com 47,04% dos votos válidos (56.098.457 votos) e Lula com 45,15% (53.846.396). Cury ficou com 2,89% e Renan Santos com 2,25%. Os votos em branco foram 1,84% e os nulos, 2,93%, com comparecimento de 78,92%.
O segundo turno será em 25 de outubro. A propaganda eleitoral gratuita em rádio e televisão vai de 9 a 23 de outubro.
A leitura da fronteira
Postos os números lado a lado, o que aparece é isto: em Ciudad del Este, o partido que dominou o Paraguai perdeu por quase três a um. Em Foz do Iguaçu, o candidato que terminou o primeiro turno empatado tecnicamente no país teve 60,96%, treze pontos acima da sua média nacional.
Duas cidades separadas por uma ponte, em países com sistemas eleitorais e calendários diferentes, e as duas se descolando da média nacional no mesmo domingo. Em novembro, uma delas empossa um intendente com maioria própria na Junta. Na outra, três semanas depois da eleição, ainda se vota.
Os números
- Ciudad del Este — intendenteDaniel Mujica (Yo Creo), 95.888 votos, 72,83%
- Segundo colocadoMiguel Chamorro (ANR), 31.337 votos, 23,80%
- Junta MunicipalYo Creo com 9 das 12 bancas — primeira maioria própria
- Participação em CDE58,37% do eleitorado habilitado
- Posse em Ciudad del Este3 de novembro de 2026
- Foz do Iguaçu — presidenteFlávio Bolsonaro, 60,96%
- Foz do Iguaçu — governo do ParanáSergio Moro, 55,34%
- ParanáMoro eleito em 1º turno com 50,10%; Flávio Bolsonaro com 59,91%
- Brasil — 1º turnoFlávio Bolsonaro 47,04% x Lula 45,15%
- Segundo turno no Brasil25 de outubro; propaganda em rádio e TV de 9 a 23 de outubro
Com informações de TSJE (Tribunal Superior de Justicia Electoral, Paraguai), TSE/TRE-PR, apuração divulgada pelos veículos locais das duas cidades.