Na quinta-feira passada, dia 8, o boletim hidrológico da Itaipu Binacional projetava que o rio Paraná chegaria ao pico entre 109,21 e 109,67 metros na Estação Hidrométrica da Ponte da Amizade.
Na tarde de segunda-feira (12), o rio marcava 116,13 metros. Quase sete metros acima do que estava previsto quatro dias antes.
A explicação não é que a Itaipu errou a conta da própria barragem. É que parte da água que define o nível do rio na fronteira não passa por ela.
O efeito de remanso
O rio Iguaçu desemboca no Paraná poucos quilômetros abaixo da barragem de Itaipu, justamente na região da Tríplice Fronteira. Quando o Iguaçu vem muito cheio, o volume que ele despeja ali funciona como um freio: represa o escoamento do Paraná e empurra o nível para cima. É o que os técnicos chamam de efeito de remanso.
“A chuva dos últimos três dias foi significativa”, afirmou Paulo Zanelli Jr., engenheiro e coordenador da Comissão Especial de Cheias da Itaipu.
A consequência prática é que a binacional controla o que sai do próprio reservatório — pela geração de energia e pelo vertedouro, aberto desde 30 de setembro — mas não controla o que o Iguaçu traz. E foi o Iguaçu que mudou a conta.
Os números ajudam a entender o tamanho da chuva: algumas estações pluviométricas da bacia do Iguaçu registraram quase 200 milímetros em 72 horas. Pontos da área de influência do reservatório de Itaipu passaram de 100 milímetros no mesmo período.
Em Ciudad del Este, uma morte e bairros inteiros fora de casa
Do lado paraguaio, a cheia somada à chuva tem uma vítima fatal. Uma mulher de 58 anos morreu no bairro Pablo Rojas quando a casa em que estava desabou durante as chuvas intensas. Ela foi levada ao Hospital de Trauma e chegou sem vida.
A prefeitura de Ciudad del Este contabiliza 185 famílias que deixaram as casas nos bairros San Rafael e San Agustín, levadas para albergues e escolas. Há ainda cerca de 70 famílias afetadas no bairro Fátima, 50 em Remansito e 50 no assentamento 8 de Diciembre, na região do Km 9 Monday. Parte dos desabrigados está no ginásio da Escola Municipal de Ofícios.
Em San Rafael, uma quadra inteira ficou coberta pela água e moradores passaram a usar canoas para chegar ao trabalho. O Lago da República transbordou e atingiu ruas do centro da cidade. Mais de cem famílias do bairro receberam assistência, com apoio das Forças Armadas, da Marinha Nacional e da Secretaría de Emergencia Nacional.
Nem todo mundo avalia a resposta da mesma forma. O jornalista Gustavo Galeano, no programa “Así son las cosas”, da Radio Universo 970 AM, relatou não ter visto ajuda municipal em San Rafael até o meio-dia de segunda-feira. Moradores pediam barracas, colchões e alimentos.
Em Foz do Iguaçu, o estrago foi menor — e tem um marco
Do lado brasileiro, a Defesa Civil contabiliza 9 desabrigados e 16 desalojados. Foram atingidas cinco residências na ocupação Bubas, no fim da Rua Castanha do Pará, e uma perto do Residencial Lagoa Dourada, onde seis moradores foram acolhidos pela assistência social.
O marco que importa é o Porto de Areia, em Porto Meira: é o primeiro ponto do lado brasileiro a ser atingido pela cheia, a partir dos 114 metros. A água passou dessa cota, entrou na área de uma empresa de extração de areia e os funcionários saíram preventivamente, aguardando o nível baixar. A água também chegou aos quiosques do Cataratas Iate Clube.
A chuva, sozinha, já produziu estrago. O Cemaden mediu 170 milímetros na região norte da cidade, 142 na leste e 102 na sul até as 18h de segunda-feira. Houve alagamento de ruas no Jardim Ipanema, no Bourbon, no Jardim Morenitas e no Jardim das Flores, além do cruzamento da Avenida Felipe Wandscheer com a Rua Itaboraí. Três residências tiveram danos no telhado, nos bairros Universitário, Vila Borges e Porto Meira, e receberam lonas da Defesa Civil. Uma árvore caiu na Avenida República Argentina, perto da Avenida JK.
A Defesa Civil emitiu alerta na noite de domingo e pediu atenção especial a três áreas: o Porto de Areia, as áreas de pescadores perto do Espaço das Américas e os moradores do vale do rio Boicy, como a Favela do Cemitério.
O número para acompanhar daqui para frente
Segundo a Itaipu, as residências de Porto Meira começam a ser diretamente afetadas a partir dos 119 metros. Até o boletim de segunda-feira, as projeções não indicavam que o rio chegaria a esse nível.
É essa a cota a observar. E como o nível muda de um dia para o outro, quem mora em área baixa nas duas margens deve acompanhar o Boletim Hidrológico da Itaipu, que é a fonte oficial e é atualizado diariamente.
A cheia também não é só nossa: a usina de Yacyretá, cerca de 400 quilômetros rio abaixo, suspendeu as visitas por causa da crecida e está com o vertedouro aberto.
Os números da cheia até segunda-feira (12)
- Projeção do boletim de 8 de outubroPico entre 109,21 e 109,67 metros
- Nível medido na tarde de segunda (12)116,13 metros na Estação Hidrométrica da Ponte da Amizade
- Por que subiu maisEfeito de remanso: o rio Iguaçu cheio freia o escoamento do Paraná abaixo da barragem
- Chuva na bacia do IguaçuQuase 200 mm em 72 horas em algumas estações
- Chuva em Foz (Cemaden, até 18h de 12/10)170 mm na região norte, 142 na leste e 102 na sul
- Foz do Iguaçu9 desabrigados e 16 desalojados, segundo a Defesa Civil
- Ciudad del Este185 famílias fora de casa em San Rafael e San Agustín; 70 no Fátima, 50 em Remansito, 50 no 8 de Diciembre
- Primeiro ponto atingido no BrasilPorto de Areia, em Porto Meira, a partir de 114 metros
- Cota a acompanhar119 metros — nível em que as residências de Porto Meira começam a ser afetadas
- Vertedouro de ItaipuAberto desde 30 de setembro
- Áreas de atenção em FozPorto de Areia, pescadores perto do Espaço das Américas e vale do rio Boicy
- Nível atualizadoBoletim Hidrológico da Itaipu, atualizado diariamente em itaipu.gov.py
- EmergênciaDefesa Civil 199, Bombeiros 193 (Brasil); SEN 138, Bomberos 132 (Paraguai)
Com informações de Itaipu Binacional (Comissão Especial de Cheias e Boletim Hidrológico); Defesa Civil de Foz do Iguaçu; Municipalidad de Ciudad del Este; Cemaden; apuração de H2FOZ, O Presente, Portal da Cidade e ADN Digital.