A Secretaria Municipal da Saúde de Foz do Iguaçu levou ao Ministério da Saúde, ao Itamaraty e à Agência Brasileira de Inteligência a discussão sobre o atendimento de pacientes que chegam dos três países da Tríplice Fronteira.
O conjunto de temas que a pasta colocou na mesa é administrativo, não policial: o fluxo e o transporte de pacientes, a referência e a contrarreferência entre os sistemas de saúde dos países, a integridade cadastral e o dimensionamento da demanda transfronteiriça e do seu impacto sobre a rede municipal.
O que o município busca, segundo a Secretaria, são três coisas: critérios mais objetivos de atendimento, registro mais confiável de quem é atendido e um financiamento compatível com a realidade assistencial da cidade.
E há uma frase que a pasta faz questão de repetir: não existe orientação de restringir atendimento em razão da nacionalidade.
O tamanho da demanda
Os números mais recentes divulgados pela própria Secretaria dão a dimensão do problema. No relatório do segundo quadrimestre de 2026, apresentado em setembro, estrangeiros responderam por 8.769 das 84.718 fichas abertas nas duas UPAs da cidade entre maio e agosto — pouco mais de uma em cada dez.
É um crescimento de 26,2% sobre as 6.949 fichas do mesmo período de 2025. Na UPA Walter Cavalcanti, o número subiu de 3.042 para 4.083, alta de 34,2%. Na UPA João Samek, de 3.907 para 4.686, alta de 19,9%.
Uma ressalva importante: esses números contam atendimentos, não pessoas. Um mesmo paciente que voltou quatro vezes aparece quatro vezes na conta.
Os paraguaios são a maioria entre os estrangeiros atendidos, seguidos por venezuelanos e argentinos, segundo o secretário municipal de Saúde, Fábio de Mello. A Prefeitura não divulgou a abertura das 8.769 fichas por nacionalidade.
A parte que os números não mostram
Há uma demanda que nem sequer entra nessa conta de “estrangeiros”: a dos brasileiros que moram no Paraguai, a dos turistas e a de quem atravessa a fronteira todos os dias para trabalhar. Todos eles são brasileiros, usam a rede municipal e aparecem nas estatísticas como qualquer morador de Foz.
Essa demanda atravessa o sistema inteiro, da atenção básica ao Hospital Municipal. E é justamente ela que torna difícil medir o problema — o que explica por que a integridade cadastral virou um dos itens levados a Brasília.
Os vídeos
A articulação com os órgãos federais começou antes, mas ganhou um ingrediente novo: a Secretaria disse ter tomado conhecimento de vídeos de empresas sediadas no Paraguai que oferecem serviços para obtenção de documentação brasileira e mencionam, entre as vantagens, o acesso ao SUS.
O material foi encaminhado aos órgãos competentes. E a pasta foi cuidadosa ao comentá-lo: afirma que os vídeos, isoladamente, não permitem afirmar que houve crime ou fraude, e que eventuais irregularidades só podem ser confirmadas por investigação.
O pano de fundo: financiamento
A posição do município não é de hoje. Em setembro, ao apresentar os dados das UPAs, o secretário Fábio de Mello resumiu assim: “Não se trata de discutir quem tem direito ao atendimento”. O pedido, então como agora, é que Estado e União considerem a demanda de fronteira na hora de financiar a rede de Foz.
Na Câmara, o tema também circula. Os vereadores Adnan El Sayed e Professora Márcia Bachixte visitaram as UPAs em setembro; Adnan relatou ter encontrado cerca de 30% menos equipe na João Samek durante a observação, inclusive no período noturno.
Há ainda duas propostas no horizonte que mexeriam com a estrutura da cidade: um hospital regional de ensino ligado à Unila, defendido pela então candidata ao Senado Gleisi Hoffmann, e um hospital regional de cerca de 200 leitos anunciado pelo governo do Paraná.
Nenhuma delas resolve a pergunta que Foz levou a Brasília, que é mais simples e mais difícil: quem paga a conta de uma cidade que atende três países.
Os números e o pedido
- Órgãos procuradosMinistério da Saúde, Itamaraty e Abin
- Temas levadosFluxo e transporte de pacientes, referência e contrarreferência entre países, integridade cadastral e dimensionamento da demanda
- O que o município pedeCritérios mais objetivos, registro confiável e financiamento compatível com a demanda
- Posição da SecretariaNão há orientação de restringir atendimento por nacionalidade
- Fichas nas duas UPAs (maio a agosto de 2026)84.718 no total, sendo 8.769 de estrangeiros — pouco mais de uma em cada dez
- Variação sobre 2025Alta de 26,2% ante as 6.949 fichas do mesmo período
- UPA Walter CavalcantiDe 3.042 para 4.083 fichas, alta de 34,2%
- UPA João SamekDe 3.907 para 4.686 fichas, alta de 19,9%
- Atenção ao ler o dadoAs fichas contam atendimentos, não pacientes únicos
- NacionalidadesParaguaios são maioria, seguidos de venezuelanos e argentinos
- Demanda que não entra na contaBrasileiros que moram no Paraguai, turistas e quem cruza a fronteira para trabalhar
- Sobre os vídeosEncaminhados aos órgãos competentes; a Secretaria diz que, isoladamente, não permitem afirmar crime ou fraude
Com informações de Secretaria Municipal da Saúde de Foz do Iguaçu, via 100 Fronteiras e Rádio União de Toledo; dados do 2º quadrimestre de 2026 apresentados pela Secretaria, via Plural.